#title O que foi o dia 19 de julho
#author Juan García Oliver
#date 1938
#source García Oliver, Juan. Ce que fut le 19 juillet. Le Libertaire (Paris), 18 ago. 1938. Tradução para o português: Instituto de Estudos Libertários. Edição brasileira: Arquivo Lucy Parsons, 2026.
#lang pt
#uid o_que_foi_o_19_de_julio
#pubdate 2026-07-20T01:41:28
#topics Revolução Social na Espanha, cnt, espanha
#notes
Os militantes libertários aguardavam os acontecimentos que tinham previsto. Se a direita triunfasse nas eleições, tal triunfo significaria a perseguição do proletariado e a anulação de todas as suas conquistas sociais, contra o que o proletariado se rebelaria. E se fossem as forças de esquerda a triunfar, uma vez que as forças de direita teriam jogado e perdido a sua última cartada legal, estas últimas recorreriam ao golpe de Estado e à revolta clerical e militarista. Com esta perspectiva e esta convicção, cuja exatidão foi comprovada pela realidade, é fácil imaginar que não ficamos parados.
Em primeiro lugar, alguns camaradas de confiança traziam-nos notícias interessantes dos quartéis e dos campos de aviação. Foi através deles que ficamos sabendo das reuniões dos oficiais, do armamento de que dispunham nos quartéis e das armas que os chefes e oficiais fascistas levavam para casa. Outros camaradas, infiltrados na polícia, completavam a nossa informação. E, dessa forma, com as nossas informações, com o que se dizia e com os rumores que circulavam, pudemos — a tempo — dirigir-nos ao proletariado do resto de Espanha, conquistado para a nossa disciplina, exortando-o a repelir pela força qualquer tentativa por parte da reação.
Os companheiros que vigiavam os quartéis nos informaram da enorme atividade registrada neles, por volta de meados de julho, e avisamos aos companheiros de maior confiança para que não baixassem a guarda e que as horas de descanso obrigatório fossem passadas em grupos, mantendo vigilância permanente, a fim de poderem acorrer a qualquer momento e onde fosse necessário. Assim, em vigilância contínua, os primeiros sinais da traição nos pegaram em plena rua, prontos para a luta e decididos a tudo. Mas, antes de chegarmos a esse momento, é necessário mencionar ainda outra coisa.
* O problema das armas
Em Barcelona, havia muito poucas armas. Apenas alguns grupos possuíam pistolas, e víamos como os acontecimentos se aproximavam e se precipitavam, sem que dispuséssemos de armamento.
Diante desse cenário, Paco Ascaso, Durruti, Aurelio Fernández, Sans e eu nos dedicamos com determinação a cultivar a amizade de alguns aviadores da base de Llobregat.
Assim, em colaboração com eles, pudemos começar a colocar nossos planos em prática.
Nos reunimos na casa do companheiro Vivancos, assim que nossos serviços de ligação com os quartéis nos informaram que, no quartel de San Andrés, havia um depósito com 90.000 fuzis, várias dúzias de metralhadoras, canhões e uma grande quantidade de cartuchos e projéteis. Todas as nossas conversas com os amigos aviadores tinham como objetivo sinalizar esses depósitos, bem como o objetivo primordial das poucas aeronaves que estavam em Barcelona, caso se quisesse que elas prestassem um serviço positivo à causa do proletariado. Para isso, era necessário que, caso ocorresse a revolta militar fascista, essas armas fossem entregues ao povo. Este, dirigido e encorajado pelos membros da organização, era capaz de enfrentar o exército; mas seria inevitavelmente derrotado se não recebesse as armas indispensáveis para a luta. Nossas dezenas ou centenas de pistolas não poderiam garantir a vitória diante de um exército formidavelmente equipado, e a classe operária acabaria derrotada se, em vinte e quatro ou quarenta e oito horas, não a armássemos adequadamente. Para isso, nas reuniões com os aviadores, sempre encerrávamos definindo o mesmo objetivo: o quartel de San Andrés, repleto de munições e armamentos, que deveria ser destruído pela aviação, para que os trabalhadores pudessem tomar posse das armas.
Ao amanhecer do dia da revolta, a CNT deu a ordem de ir a San Andrés e proceder ao assalto dos quartéis assim que fossem bombardeados pelos aviadores, incentivando o povo a tomar posse dos canhões, metralhadoras, fuzis e munições que ali estavam armazenados. No entanto, os acordos firmados só foram postos em prática durante a tarde, e não posso negar que, pela manhã, passei por momentos muito difíceis, pois via a situação como perdida para nós.
* Plano de combate
No entanto, um fator com o qual não contávamos acabou nos favorecendo e fez com que a vitória se tornasse fulgurante e definitiva algumas horas mais tarde. Esse fator, inesperado para mim, foi o desconhecimento, por parte dos rebeldes, da topografia da cidade.
Diziam que Goded era um grande general. Eu não entendo o porquê, já que seu gênio militar não se revelou de forma alguma. Das três grandes avenidas que ligam a parte alta da cidade à parte baixa e ao porto, ou seja, o Paralelo, as Ramblas e a Via Layetana, as tropas rebeldes tomaram apenas o Paralelo. Elas não se decidiram a tomar a Via Layetana pelo Paseo Colón, temendo a ação da “Chefatura de Polícia”, que na época ficava por ali, e a da governança da Generalitat, localizada um pouco mais acima. Preferiram atacá-la pela praça Urquinaona, perdendo tempo com o desvio e, além disso, deixaram completamente desprotegida aquela enorme artéria que são as Ramblas. Nessas últimas, só estávamos nós. Elas logo foram transformadas em quartel-general por nós, já que os inúmeros caminhos que levavam até lá nos permitiam estabelecer excelentes conexões com nossas tropas. A partir das Ramblas, podíamos correr sem nenhuma dificuldade, por um lado, em direção à Via Layetana, atravessando ruas e vielas; por outro lado, em direção ao Paralelo, atravessando o 5º distrito. Além disso, nos comunicávamos com a Praça da Catalunha, que dominávamos quase completamente, pois eles controlavam apenas entre o Cassino Militar e a esquina do Paseo de Gracia.
Logo percebemos a desorientação que reinava no comando rebelde e, como ao nosso redor se aglomeravam milhares de homens, em sua enorme maioria munidos de armas brancas e algumas centenas de revólveres, decidimos que, em vez de tiros isolados, nos preparássemos para uma ação combinada de ataque para romper a linha deles no Paralelo, cortando-a, se possível, em vários pontos. Entregamos então a Durruti uma das poucas metralhadoras que havíamos recolhido durante a tomada do bairro da Avenida Icaria e, com um grupo, Durruti montou guarda na Plaza del Teatro para defender as Ramblas de um ataque e proteger as manobras que Francisco Ascaso e eu deveríamos levar a bom termo com outros companheiros, rompendo, no Paralelo, a linha de frente dos insurgentes.
* O Ataque
Ascaso avançava pela rua Conde de Asalto (hoje rua Nueva de la Rambla) e eu pela rua San Pablo. Nosso propósito era uma convergência para atacar os rebeldes. Mas a situação de Ascaso era muito difícil porque, ao chegar ao Paralelo, ele se deparou com um inimigo poderoso, perfeitamente entrincheirado em Atarazanas, na ala da Alfândega e na usina de energia elétrica. Seus companheiros estavam praticamente desarmados; apenas com pistolas, não conseguiriam romper essa linha. Ao chegarmos com esses companheiros ao cruzamento da Ronda, percebemos o que estava acontecendo. E, então, fizemos um desvio para sair pela rua Marquês del Ducro e surpreender o inimigo pelas costas. De fato, em frente ao “Moulin Rouge”, foi infligida aos rebeldes a derrota mais terrível. O povo, com revólveres como principal arma de luta, havia derrotado o exército. O primeiro quartel a se render foi o da Avenida Isaria. A última rua de Atarazanas, onde Ascaso morreu gloriosamente. Os aviadores sobrevoaram San Andrés durante a tarde e o povo passou então a dispor de fuzis.
Os fatores que determinaram a vitória de julho de 1936 foram:
1° Que a classe operária de Barcelona, com uma formação de luta de vários anos proporcionada pelo movimento anarquista, estava decidida a lutar;
2° Que os elementos mais destacados da CNT e da FAI não decepcionaram as massas operárias preparadas para a Revolução. Pelo contrário, colocaram-se desde o primeiro momento à frente delas e não abandonaram as ruas até que os militares fossem derrotados;
3º. O espírito antifascista de um grupo de oficiais mecânicos e soldados da aviação da zona aérea do Prat de Llobregat:
4° Que a maior parte das forças de assalto e de segurança, juntamente com os melhores e mais numerosos altos comandantes da ordem pública, permaneceram fiéis, lutando com entusiasmo ao lado dos trabalhadores;
5° Que o Presidente da Generalitat não abandonou seu posto, incentivando com sua presença a resistência armada do povo.
* O Comitê Central Das Milícias
O Comitê Central das Milícias surgiu assim que a rebelião militar foi derrotada, por iniciativa do Presidente Companys, que reuniu em seu gabinete representantes dos diversos setores antifascistas e, durante uma entrevista memorável com os membros da CNT e da FAI, expressou a eles seu sentimento, reconhecendo que éramos os árbitros da cidade e de toda a Catalunha. Companys, com um senso liberal perfeito, se colocava incondicionalmente à disposição dos trabalhadores. Se considerássemos que ele era um obstáculo, ele estava disposto a se retirar. Se acreditávamos que, com seu cargo e seu prestígio, ele poderia ajudar a causa do povo; ele estava disposto a buscar soluções que pudessem normalizar a vida dos cidadãos e tornar prática e imediata a colaboração armada da Catalunha à causa popular que se desdobrava no resto da Espanha.
Dessa conversa com o presidente da Catalunha e do contato e da colaboração com outros setores que, na verdade, não representavam na época nenhuma base significativa, surgiu o Comitê Central das Milícias, que assumiu funções executivas e o fez de forma tão adequada que se tornou um maravilhoso instrumento de governo.
Esse Comitê contava, além de outros de menor importância, com um departamento de guerra encarregado de organizar, preparar e enviar milícias para a frente de batalha; da direção da guerra, da criação das indústrias de guerra, do abastecimento militar, da disciplina e da ordem militar nas unidades e quartéis da retaguarda e nas unidades que se concentravam nas frentes.
Outro departamento era o de ordem pública, encarregado de restabelecer a ordem e o direito das pessoas, o que foi alcançado rapidamente com a criação da vigilância antifascista, bem como das patrulhas de controle, órgão de repressão ao fascismo.
O departamento de propaganda ficou encarregado de canalizar o entusiasmo das massas e de levar ao exterior o verdadeiro sentido de nossa luta.
O Comitê era composto por representantes de todos os setores antifascistas, mas a organização libertária detinha o controle majoritário.
Eu assumi o departamento de guerra. Aurelio Fernández, o de ordem pública. Doménech, o de abastecimento.
Já no exercício de suas funções executivas, o Comitê Central das Milícias procedia à formação das unidades que deveriam partir de Barcelona rumo a uma frente desconhecida para combater o fascismo, onde quer que ele se mostrasse vitorioso.
As notícias que nos chegavam davam como certo que Zaragoza estava sob o domínio deles, e decidimos que as primeiras forças partiriam para Zaragoza, embora não soubéssemos onde encontraríamos o primeiro obstáculo.
Convocamos voluntários no Paseo de Gracia e organizamos uma concentração muito numerosa de caminhões ao longo de toda a Gran Via Diagonal. Formamos um estado-maior composto por Durruti, José Gromer, Pérez Farrás e outros.
Ao chegarem a Lérida, os milicianos se dividiram. Durruti, com Pérez Farrás, seguiram para Bujaraloz; e [José] del Barrio [1], com outros grupos, dirigiu-se para Huesca. O fato de as forças rebeldes terem sido contidas no local por vários meses, sem conseguirem avançar em direção à Catalunha, dá uma ideia da importância da partida desses milicianos.
* A verdadeira democracia
A CNT e a FAI, senhoras absolutas da cidade de Barcelona, bem como da Catalunha, não se decidiram a adotar uma postura totalitária em suas ações, talvez devido a um senso de maturidade revolucionária.
Não fizemos, sem dúvida, uma revolução totalitária; mas, muito diversamente, fizemos uma revolução profunda. Tão profunda que, mesmo hoje, após dois anos de renúncias e concessões constantes, ainda permanecem de pé princípios e vestígios gloriosos que jamais poderão desaparecer. O impacto de nossa revolução foi profundo. Certamente que, na história, não há registro de um impacto tão profundo, nem mesmo na Rússia.
Pretender monopolizar o movimento, impondo nossa influência de forma totalitária, teria nos levado a um desastre. Se, externamente, não recebemos o apoio necessário, apesar de todas as concessões revolucionárias que fizemos, imaginem qual teria sido a reação internacional caso a tendência totalitária tivesse se manifestado. O totalitarismo é a armadilha insuperável na qual tropeçam as revoluções de todos os povos.
Nossa maturidade revolucionária nos levou a buscar o contato e a convivência com todos os setores. E demos um exemplo sem precedentes: mesmo quando éramos maioria, jamais, sob nossa influência, perseguimos ou menosprezamos qualquer setor antifascista, por mais insignificante que fosse. Nossa regra foi respeitar a todos e exigir o respeito recíproco. Essa grandeza de visão e essa conduta que mantivemos em todos os momentos não foram compreendidas nem apreciadas pelos outros setores antifascistas. Mas sempre, com todo tipo de provas, documentos e fatos vividos, poderemos demonstrar que, ao fim de dois anos de luta e de magnífica resistência, esta última foi possível porque, desde o início, as forças majoritárias da CNT e da FAI impuseram a todos cordialidade e unidade de ação.
Se hoje podemos oferecer ao mundo o espetáculo da luta pela independência da Espanha — e não pela predominância de partidos ou organizações —, isso se deve a nós. E vamos triunfar, disso nem sequer duvido; e se fizermos da Espanha um grande povo que mantenha em pé de igualdade todos os cidadãos, isso também se deverá a nós.
[1] José del Barrio Navarro havia ingressado na CNT muito jovem, ainda adolescente, filiando-se depois à Federação Comunista Catalã-Baleares (FCCB). Em 1933, foi expulso da CNT e passou a integrar a União Geral dos Trabalhadores (UGT). Um ano antes, em 1932, tornou-se um dos membros fundadores do Partido Comunista da Catalunha (PCC), partido do qual foi expulso três anos depois muito em função das suas convicções sindicais. Em 1936 foi um dos fundadores do Partido Socialista Unificado da Catalunha (PSUC). Dentro do Comitê de Milicias as suas posições contrastavam com as de Durruti, exatamente nas questões relativas à subordinação das colunas revolucionárias ao exército regular. (N. T.)